A ideia que fazemos de nós corresponde ao que realmente somos?
Você já se deparou com a pergunta:
- Por que eu fiz isso?
Em uma variação no presente:
- Por que estou fazendo isso?
Ou ainda:
- Como isso foi acontecer?
Talvez uma afirmação como:
- Eu nunca pensei que iria gostar disso! (ou fazer isso!).
Se nenhumas das frases citadas lhe ocorreu ao longo da vida, provavelmente algo muito semelhante já passou por sua cabeça. De um modo geral, esses pensamentos acontecem em momentos onde passamos por uma pequena (média, ou grande) "crise de identidade", ou seja, quando não reconhecemos um comportamento, (atitude, vontade, etc) como sendo parte de quem somos, parte do nosso "EU".
E se eu lhe perguntasse "Quem é você?", qual seria a sua resposta?
Não ouvimos esse tipo de pergunta com frequência, elas normalmente acontecem em entrevistas, principalmente de emprego. Porém, nesses casos, direcionamos nossa resposta com o objetivo de "atender" às expectativas do entrevistador, (omitimos algumas informações e exageramos em outras) deixando de sermos totalmente sinceros. Em outras palavras, diante da pergunta "quem é você?" em uma entrevista, passamos um "EU" com parcimônia.
- É claro, como não perguntam no dia a dia, não pensamos em quem somos! Mas será que essa afirmativa é totalmente verdadeira?
Se você possui uma rede social, compra roupas e sai de casa a passeio com frequência (como praticamente todo mundo), você pode até não pensar diretamente, mas tem uma ideia de "quem você é" ou uma ideia de "EU" que vai permear suas escolhas sobre o que "postar", vestir e até mesmo onde ir. Respondendo a pergunta do início do parágrafo... Sim! mesmo indiretamente, pensamos em quem somos!
Sabedores de que "pensamos em quem somos", podemos retomar as questões do início do texto, mas antes vale a reflexão sobre "como construímos uma identidade", afinal, não nascemos sabendo do que gostamos, se somos meninos ou meninas e nem mesmo se somos humanos. Parece exagero, contudo, a verdade é que nos constituímos através do outro, seja por processos de identificação e até mesmo por processos de rejeição.
O que acontece muitas vezes é que esse processo de edificação do "EU" não acaba, pelo menos não enquanto estamos vivos, pois estamos abertos a uma imensidão de possibilidades e, embora exista uma tendência a fazermos escolhas que estejam relacionadas a ideia que temos sobre nós, vez ou outra escolheremos algo "novo" que (a princípio ou definitivamente) pode nos parecer "estranho". Além das escolhas, a construção de nossa identidade também passa por situações que estão fora de nosso controle, como doenças, em pessoas próximas e familiares, ou ainda, acidentes e fatalidades.
A composição de um "EU" é permeada de papéis sociais, sejam eles de "filho", "pai/mãe", "marido/esposa", "amigo", "chefe", "funcionário(a)", "cliente" e uma infinidade de representações que são constituídas por um "aglomerado de valores e princípios" que temos que nos atentar ao desempenhar os diversos "papéis" que escolhemos (e mesmo os que não tivemos escolha).
O fato é que não é difícil se perder nesses "papéis" e misturarmos todos, ou assumirmos um deles como sendo a nossa "identidade". Quando fazemos isso, podemos restringir as nossas possibilidades e quando acontece algo que está além do que acreditamos fazer parte do "papel" identificado com o "EU", nos pegamos com as questões "Por que eu fiz isso?", "Como isso foi acontecer?" ou "Eu nunca pensei que iria gostar disso!". Ou seja, as frases geralmente estão relacionadas ao exagero e a um determinado papel ou a confusão entre dois ou mais deles.
Respondendo a pergunta do subtítulo "A ideia que fazemos de nós corresponde ao que realmente somos?", tanto podemos dizer que não, uma vez que estamos em uma eterna construção, quanto podemos afirmar que sim, pois vivemos de escolhas e são (em grande parte) essas escolhas que determinam o que somos. A conclusão é que tudo depende do ponto de vista, sendo o ser humano multifacetado e imprevisível...
Alex Vernalha de Oliveira Araujo
Psicólogo Clínico
24/03/2014

Excelente texto !
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